DISCOPINIÃO | António Variações - «Anjo da Guarda»

Lembro-mo de ter assistido à primeira apresentação ao vivo do António Variações, há cerca de um ano, na Feira Popular de Lisboa, espectáculo em que fez a primeira parte da actuação do grupo UHF. A forma como António foi recebido por alguma parte do público constitui uma das manifestações mais vergonhosas a que até hoje assisti. Inclassificável e inadmissível em pessoas ditas civilizadas. Que Jamais se repita!
O António não usa armas nem usa a força, assim, este álbum «Anjo da Guarda» é a sua melhor resposta a todos aqueles que não o souberam escutar com o devido respeito.
Após o explosivo maxi-single «Estou Além» que o disparou para as páginas dos jornais e para as ondas radiofónicas, António variações faz agora a sua estreia em vinil de trinta e três rotações: a promessa de «Estou Além» tem aqui a sua confirmação.
Personagem polémico, António variações continua a envergar a sua imagem própria, constituindo-se ao mesmo tempo como um dos artistas mais insólito e inovadores da nossa praça.
As propostas musicais patentes em «Estou além» permanecem, são ainda aprofundadas em «Anjo do Guarda» - fascínio por Amália Rodrigues é evidente: o sentimentalismo do fado em parceria com o ritmo balanceado da música rock.
Neste álbum, António variações faz variações alucinantes na música moderna portuguesa, criando um trabalho heterogéneo, povoado pelas mais diversas referências - desde nostalgia de Amália à vocalização vanguardista de um David Bowie, passando por evocações instrumentais que vão desde sons electrónicos (estico cold-wave rock cósmico) até percussões acústicas de bombos e adufes, de típica tradição portuguesa. O produto final resultou sem dúvida original, e de certo modo inovador.
Os textos de António fogem à vulgaridade; são ambíguos e atentos apreensivos e pessoais, mas ao mesmo tempo acessíveis e atraentes.
Quanto aos músicos asseguraram o desempenho de toda instrumental do álbum. Chester Passarela realiza um excelente trabalho de saxofone (já o tinha feito em «Estou Além»), soprando de maneira algo free, estilo jazz.funky. Tóli, na bateria, marcou um ritmo forte e sincopado, enquanto Victor Rua nas guitarras deu alguns cheirinhos das ambiências Telectu.
Colaboraram ainda no álbum os músicos Manuel Faria, Zé Carias, Zé Carrapa e Zé da Ponte. A produção esteve a cargo de Moz Carrapa e tem algumas coisas giras, outras menos.
Dos dez temas incluídos em «Anjo da Guarda» - como já disse bastante variados - destaco o balanço avant-garde de «Onda-Morna» (estão excelentes as insinuações vocais de variações, e estou em crer que melhor ficariam se tivessem sido mais evidenciadas); o cósmico e intrigante «Visºoes-Ficções (Nostradamus)», onde se faz notar o impecável trabalho de Victor Rua; o soxafone de Passarella em «Quando Fala Um Português» e «Linha-Vida»; o sublime e introspectivo «Sempre Ausente»; e os imediatamente acessíveis e cantaroláveis, dado o seu carácter manifestamente popular. «O Corpo É Que Paga» e «P'ra Amanhã», para lá da faixa dedicada a Amália «Voz-Amália-De-Nós» e do já «velho» «Estou Além».
«Anjo da Guarda», um álbum que António variações dedica a Amália, e que, ao mesmo tempo, se revela como um trabalho de bom nível e bastante interessante se analisarmos no âmbito da música moderna portuguesa, constituindo já uma das edições nacionais deste ano.
Força António! Continua que vais bem!
AF, Diário Popular

1983-04-09