Biografia

Breve Apontamento Biográfico de António Variações

A vida e obra de António Variações (nascido António Joaquim Rodrigues Ribeiro) seguem a tendência apoteótico-apocalíptica de muitas das grandes figuras mediáticas do século XX: um período de intensa visibilidade pública acompanhado de um furor criativo tão meteórico quanto fugaz. António actualizaria, à sua maneira, o mito do artiste maudit, subtraíndo porém a esta matriz o lado sombrio da incompreensão alheia e da genialidade solitária. De facto, desde cedo a sua aparição mediática foi bem acolhida pelo público português, tanto na excentricidade da sua persona artística como na estranheza refrescante e vanguardista da sua música. Por outro lado, como António nunca recebera uma educação musical formal, o seu talento e musicalidade inatos não teriam florescido sem a colaboração de uma hoste de músicos de renome, seus contemporâneos, que o ajudariam a moldar o som “entre Braga e Nova Iorque.”

A sua visão musical manifestar-se-ia, assim, sem par no panorama musical português. A profunda originalidade da síntese que efectuou entre música popular ligeira, folclore, fado e o pop/rock internacional – síntese profundamente pós-modernista – continua a suscitar interesse. A actualidade dessa visão justifica o interesse renovado com que se volta regularmente à sua obra enquanto referência central da música portuguesa. Variações deixou um acervo considerável de registos áudio não editados em cassetes de gravação caseira, que tem sido apreciado por novos artistas como forma de honrar a sua obra, ressuscitando-a no presente. A confirmar esse entusiasmo recorrente estão, por exemplo, as incontáveis versões dos temas mais populares, nomeadamente, “Canção de Engate” e “Estou Além”; os cinco temas originais editados em 1989, na voz de Lena d'Água com o álbum “Tu Aqui”; o projecto Humanos (2004); e, mais recentemente, a edição do inédito “Parei na Madrugada” (2014) pelo grupo OqueStrada. O teste do tempo tem recuperado e dignificado Variações como um dos talentos maiores da música popular portuguesa do século XX.

António nasce em Dezembro de 1944, no lugar de Fiscal, concelho de Amares, distrito de Braga. Aos 12 anos parte para Lisboa, fascinado pelas estrelas do mundo da música e do espectáculo, e, já possivelmente, acalentando o sonho de um dia se tornar uma delas. Desempenharia vários ofícios, de marçano a escriturário, antes de cumprir serviço militar em Angola; regressado de Angola decide procurar outros destinos, alargar horizontes, partindo rumo ao estrangeiro, tendo Londres como primeiro destino, onde reside durante alguns anos e onde aperfeiçoa a língua inglesa; em 1976 regressa a Portugal por pouco tempo e parte novamente à descoberta, desta feita para Amsterdão. O relativo desconhecimento em relação à substância das suas estadias no estrangeiro permite porém adivinhar o contacto de António com elementos da cultura artística e musical que se vivia além-Pirinéus e, por meio dessa Europa, com o Mundo. É no estrangeiro que aprende o ofício que o viria a sustentar depois do regresso a Portugal, o de barbeiro. Pouco depois do seu regresso a Lisboa abre o seu próprio salão unissexo, intitulado “P´ró Menino e P´rá Menina”, frequentado por uma clientela em sintonia com as novidades do estilo e da moda mais arrojadas de então. António integra a pequena elite cultural e artística que começa a desenvolver, num Portugal ainda provinciano, sintomas de uma Europa desenvolvida, culta, civilizada e aberta ao mundo.

Essa elite começa a alterar a vida cultural da cidade a partir de pólos hoje míticos, como o “Trumps”, inaugurado em 1980 – verdadeira rampa de lançamento da carreira musical de António e ponto de encontro de vários notáveis do mundo das artes, da televisão e da música – bem como o “Frágil”, aberto em 1981, num bairro de má reputação que se viria a transformar no território por excelência do cosmopolitismo vanguardista deste período. O início dos anos 80 assistiu a uma verdadeira revolução de costumes, que se introduziu através da movida nocturna lisboeta, abrindo efectivamente a atmosfera provinciana da cidade a ventos de mudança. António e o seu espírito iconoclasta estiveram na linha da frente desta mudança radical que deu novos mundos ao pequeno mundo português – relativamente intocado, na sua essência, pela revolução de 1974.

O período entre 1981-84 corresponde ao desenrolar, breve mas intenso, da carreira de António Variações, catapultada pela sua aparição televisiva no Passeio dos Alegres de Júlio Isidro (1981), e finalmente consolidada através da edição do seu primeiro álbum “Anjo da Guarda” (1983), vários anos depois de assinado o contrato com a casa de edição Valentim de Carvalho. O seu desaparecimento prematuro, em 1984, deixou pelo caminho uma carreira musical que se afigurava promissora. É já no leito de morte que António recebe a notícia da edição do segundo álbum “Dar e Receber” (1984) – edição que viu a luz do dia por insistência do próprio António, uma vez que a editora EMI pretendia adiar a edição devido à sua doença. Nem por isso a sua memória se desvaneceu, em grande parte fruto das homenagens e revisitações feitas à sua obra por vários vultos da música portuguesa durante as décadas seguintes, movimento que continua ainda hoje. A sua memória permanece no ouvido dos portugueses de todas as gerações, o que atesta bem a intemporalidade da sua música e dos seus textos.

António, visto à distância de 30 anos, surge inevitavelmente como um dos pais fundadores da música pop/rock portuguesa contemporânea. O rótulo é, apesar de tudo, redutor e trai o ecletismo e a riqueza inovadora das canções que nos deixou. O seu fantasma paira sobre a música portuguesa, como elemento de ligação entre um Portugal profundo e ancestral – eventualmente perdido – e uma modernidade cosmopolita em cujo seio conquistou a pulso um lugar seguramente merecido. António não estava à frente do seu tempo. António estava no seu tempo e conseguiu mostrá-lo de forma fulgurante.

Fernando Conde

Maio de 2014

(Revisto por Jaime Rodrigues Ribeiro, Herdeiro e representante dos Herdeiros de António Variações)

Sofia P. Trindade