António Variações "Anjo da Guarda" por Manuel Paraíso. 1983

António Variações "Anjo da Guarda" 3VCLP 10040

Pode afirmar-se, com toda a segurança, que António variações ocupou, quando da edição do seu primeiro registo ("Estou Além/Povo Que Lavas No Rio"), há cerca de um ano, um lugar definido dentro do meio musical português, destacando-se da mediania pelo seu timbre vocal invulgar. É precisamente a própria voz o elemento mais representativo da sua expressão musical, como um verdadeiro instrumento característico e imaginativo, capaz de despertar diversas reacções - possivelmente todas, excepto a indiferença. Um disco de António Variações jamais passaria despercebido embora a responsabilidade não caiba realmente aos temas, aos instrumentistas ou a produção do trabalho. O factor diferença é dado pela capacidade interpretativa, explorada de uma forma originalíssima, que António evidência uma vez mais, neste seu segundo trabalho de estúdio. Marcado por uma homogeneidade demasiado óbvia, a nível de composição (da qual salienta uma certa limitação), "Anjo da Guarda" oferece, em contra partida, um leque imaginativo de letras interessantes e bem estruturadas, entre as quais gostaria de referir " Sempre Ausente", "Onda-Morna", "Visões - Ficções (Nostradamus)" e "Quando fala um Português", além dos já conhecidos "Estou Além", "...O Corpo é que Paga" e "É P'ra Amanhã...". Denunciando um sabor tipicamente português, principalmente nos temas já referidos "É P'ra Amanhã", "O Corpo é que Paga" e também em "Voz-Amália-De-Nós", homenagem a Amália Rodrigues, a quem é dedicado o álbum. "Anjo da Guarda" é um disco agradável, saboroso e expressivo, apesar de a qualidade das músicas não corresponder, na minha opinião, ao nível global do trabalho. Aguardemos o próximo.

Música Som, texto de Manuel Paraíso Junho de 1983

1983-06-01