GNR no Ritz por Rui Monterio

- Num dos mais antigos cabares Lisboetas verificou-se, para surpresa de muitos, a activação de uma das mais modernas bandas de roque. Aqui de dá conta do insólito acontecimento. -

«Senhoras e senhores: antes da apresentação do segundo chô desta noite, no Ritz Club, temos a honra de vos apresentar o conjunto musical GNR»

Foi assim que o habitual apresentador das noites longas do Ritz anunciou a presença dos GNR a uma assistência cientificamente convidada. Antes, a mesma assistência tinha visto o habitual espectáculo do clube mais quitche de Lisboa; Strip-tise, canções dos anos quarenta, rábulas do princípio do século, palhaços de antes de ontem.
Os bons costumes da moral em vigor diriam que aquele espectáculo era a prova definitiva da decadência da juventude e do novo mundo do espectáculo. os moralistas mais humanizados, esses diriam que os habituais frequentadores do Ritz, assim como os seus artistas, não tinham sido respeitados, tendo sido usados como cenário para uma manifestação artística de conteúdo duvidoso. Os que lá estiveram preferiam levar aquilo na desportiva, assistir ao chô do Ritz, enfiar uns copos, ver os GNR, topar António Variações, emborcar mais uns copos e ver o segundo chô do Ritz, assim como fazer o seu próprio espectáculo.
Como o chô do ritz é indescritível, o melhor é darem lá um pulo. Quanto aos GNR tentem apanhar ai um espectáculo para poderem perceber a sua força no estrado, a gana com que os temas são transformados para a vivência do palco.
O espectáculo do Ritz, ou o hépeningue se quiserem, vale pelo conjunto e não por um detalhe ou outro. assim sendo é difícil separar, com êxito, as coisas. mas dali sai um certeza, ou melhor: duas:
A primeira é que os GNR conseguem, no palco, acompanhar a pedalada do disco e, no caso de «Avarias», dar-lhe muito mais força, graças à movimentação onde nada parece estar previsto e as coisas acontecem ao sabor das anteriores ou de coisa nenhuma.
A certeza número dois é que António variações, a actuar mesmo em pleibeque instrumental, vive o que faz e faz o que vive, transportando para o estrado o calor do disco e da emoção de cantar, passando a ser tão grande como intérprete, como já o era enquanto compositor.

Texto Rui Monteiro (artigo publicado em Jornal não identificado)

1982-07-16